A Liturgia do Incêndio
Não o chamem de leito. Aquilo que jaz entre quatro paredes é uma geografia de cinzas, um esquife de linho onde a noite derrama seu orvalho de ferro. Ela não dorme; ela se sepulta. Ali, o silêncio não é ausência de som, é uma faca vertical que corta o fio de sua garganta, despojando-a de seu nome, de sua luz, de sua substância de mulher.
Mas escutem o rugido que vem debaixo das costelas.
Sua epithymia não é um erro de cálculo, nem o capricho de uma uva amarga. É a raiz faminta que perfura a pedra buscando a água. É o grito de sua pele — essa planície que se nega a ser fóssil, que recusa o mofo das instituições e reivindica o seu direito ao incêndio. O corpo, meus senhores, não foi moldado para a poeira das bibliotecas, mas para o trigo e para a labareda.
E sua boulesis? Não a chamem de cúmplice. Ela é a arquiteta das ruínas. Com a lucidez de quem conta os pregos de sua própria cruz, ela mediu o abismo desse "lar" e descobriu que a santidade ali pregada era um veneno de lenta digestão.
Procurar o outro — o estranho de mãos de terra e olhos de temporal — não é uma queda no lodo. É um cálculo de sobrevivência. É a inteligência da semente que rompe o asfalto para não morrer sufocada. Ela não busca o pecado; ela busca o oxigênio.
Se existe um crime, ele não pulsa no suor dos abraços clandestinos, nem no sal que se troca na penumbra. O verdadeiro pecado é a mão que a transformou em deserto.
Ela não trai um homem; ela desenterra a si mesma. Cada carícia roubada é um golpe de picareta contra a asfixia. No altar do proibido, ela não profana a fé; ela celebra uma missa violenta e necessária, oficiando, com o sangue e o beijo, o milagre de ainda estar viva.
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