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A Liturgia do Incêndio

Não o chamem de leito. Aquilo que jaz entre quatro paredes é uma geografia de cinzas, um esquife de linho onde a noite derrama seu orvalho de ferro. Ela não dorme; ela se sepulta. Ali, o silêncio não é ausência de som, é uma faca vertical que corta o fio de sua garganta, despojando-a de seu nome, de sua luz, de sua substância de mulher. Mas escutem o rugido que vem debaixo das costelas. Sua epithymia não é um erro de cálculo, nem o capricho de uma uva amarga. É a raiz faminta que perfura a pedra buscando a água. É o grito de sua pele — essa planície que se nega a ser fóssil, que recusa o mofo das instituições e reivindica o seu direito ao incêndio. O corpo, meus senhores, não foi moldado para a poeira das bibliotecas, mas para o trigo e para a labareda. E sua boulesis? Não a chamem de cúmplice. Ela é a arquiteta das ruínas. Com a lucidez de quem conta os pregos de sua própria cruz, ela mediu o abismo desse "lar" e descobriu que a santidade ali pregada era um veneno de lenta d...

A Alma na Prateleira. SAF-se Quem Puder!

O cheiro de café coado e pão na chapa mal se dissipava no ar da padaria quando a voz, grave e rouca de quem já viu muito mais que o placar, cravou: “Não tem jeito, meu filho. É SAF ou a gente afunda de vez”. Ao lado, um jovem, com o fone de ouvido a isolá-lo do mundo, mas não da angústia, balançou a cabeça em concordância. O jornal aberto na mesa trazia a manchete, fria como um extrato bancário: 41% dos fiéis, sim, fiéis, já acenam com a bandeira branca para a ideia de entregar a chave do cofre a um dono. E eu, que já vi o futebol virar arte, circo e até religião, sinto um calafrio que não vem do vento da arquibancada, mas da vertigem de um povo que parece esquecer a própria certidão de nascimento. Porque o Corinthians, meus caros, não nasceu de um balancete, mas de um grito. Naquela São Paulo de chaminés e anarcossindicalismo , onde o suor operário era a moeda mais forte, o Sport Club Corinthians Paulista foi um ato de insurreição. Não foi fundado para ter um dono, mas para ser a nega...

A Queda do Imperador: Impeachment e o Inferno Corinthiano de Augusto Melo

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Ah, o Parque São Jorge! Não um mero clube social, mas um pântano de paixões onde a glória e a lama se misturam com a naturalidade de um abraço de Judas. Ali, meus amigos, o poder não se conquista, se usurpa; não se exerce, se devora. É um palco iluminado por holofotes precários, onde a tragédia veste a camisa alvinegra e o coro grego é a própria Fiel, essa massa que oscila entre o amor incondicional e o ódio homicida. E no centro desse redemoinho, ergueu-se e agora desaba o efêmero império de Augusto Melo. O processo de impeachment de Augusto Melo não é apenas uma manchete fria, um verbete burocrático; é o último ato de uma tragédia anunciada, encenada sob os olhares vorazes de uma torcida que ama e odeia com a mesma intensidade bíblica, pronta para devorar seus ídolos de barro ao primeiro sinal de fraqueza. Reprodução: Corinthians TV Augusto Melo, o homem que surgiu como um raio em céu azul, prometendo o sol, a lua e as estrelas do futebol mundial – craques de renome, patrocínios far...

O piuí da Piauí

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Caderneta no bolso, um olho no treino, outro no vestiário. Houve um tempo em que o jornalista esportivo buscava a notícia, investigava… calma aí, não é papo saudosista. Prometo que não vou invocar as tais lembrovitas . Armando Nogueira - Foto: Globo Eram outros tempos, é verdade, mas ali tinha pergunta, não achismo; tinha investigação, não um corte de 30 segundos gritando para viralizar no TikTok. A busca era pela verdade, pelo bastidor, por CONTEXTO. O jornalista não queria ser protagonista — queria ser o fio que ligava o torcedor àquilo que ele não podia enxergar. Errar fazia parte, exagerar, idem — mas ainda era jornalismo. Jornalismo que buscava o fato, não o like. Hoje, parece que o jogo virou — e tá pior que o 4x1 que tomamos da Argentina. O jornalista virou, muitas vezes, um influencer de arquibancada. Não pergunta, opina. Não investiga, faz react. É um descompromisso que aliena. O único compromisso que resta é com os dados de audiência do YouTube, com o engajamento no X — antig...

Futebol e política não se misturam. Eles são uma coisa só!

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 O juiz olha o relógio, leva o apito à boca e inicia o jogo. São onze de cada lado, prontos para a disputa, almejando a glória. O presidente da câmara olha o relógio, toca a sineta e inicia a sessão. Oposição e situação prontas para a disputa, almejando suas pautas. Deputado Afonso Hamm (PP-RS) pede para senador Romário (PL-RJ) autografar camisas. Foto: Marcos Oliveira/Agência Senado   Outro dia, estava na fila do caixa do mercado, inicio de mês e aquilo estava um caos. Coca-Cola zero,  160g de mussarela (pedi 100g, mas a atendente errou pra cima e perguntou: "160 é muito?". E eu, sem reação, respondi: "Pode ser") e 4 pãezinhos. Conferi, tudo certo. Com minha camisa do Timão, autografada pelo Craque Neto (que Deus lhe dê em dobro o título de 90), sinto alguém cutucar meu ombro, um senhor na casa dos seus 50 e poucos, me olha e diz:     - Sou corinthiano também, eu era fã do Neto. Dou um sorriso de quem foi pego de surpresa pela interação e retruco:  ...