A Alma na Prateleira. SAF-se Quem Puder!

O cheiro de café coado e pão na chapa mal se dissipava no ar da padaria quando a voz, grave e rouca de quem já viu muito mais que o placar, cravou: “Não tem jeito, meu filho. É SAF ou a gente afunda de vez”. Ao lado, um jovem, com o fone de ouvido a isolá-lo do mundo, mas não da angústia, balançou a cabeça em concordância. O jornal aberto na mesa trazia a manchete, fria como um extrato bancário: 41% dos fiéis, sim, fiéis, já acenam com a bandeira branca para a ideia de entregar a chave do cofre a um dono.

E eu, que já vi o futebol virar arte, circo e até religião, sinto um calafrio que não vem do vento da arquibancada, mas da vertigem de um povo que parece esquecer a própria certidão de nascimento. Porque o Corinthians, meus caros, não nasceu de um balancete, mas de um grito. Naquela São Paulo de chaminés e anarcossindicalismo, onde o suor operário era a moeda mais forte, o Sport Club Corinthians Paulista foi um ato de insurreição. Não foi fundado para ter um dono, mas para ser a negação visceral de um. Era a teimosia de mãos calejadas erguendo um clube contra a elite, contra os engravatados que já tinham seus times.

E agora, os herdeiros desse grito de liberdade, sufocados pela dívida de R$ 2,6 bilhões, pedem por um Messias de terno e gravata. Que ironia trágica, essa revolução devorada pelos seus próprios filhos. É a alma do povo, antes altiva, agora posta à venda na prateleira do desespero. Mas antes de assinarmos esse cheque em branco da nossa história, deveríamos, por um instante, olhar para o norte. Para o fantasma que assombra Manchester, um espectro de vermelho e preto. Em 2005, o United era um colosso, lucrativo, sem dívidas. Tinha tudo, menos um dono com sede de alavancagem. Os Glazer não chegaram com malas de dinheiro para investir; chegaram com empréstimos de £540 milhões que, vejam só, foram transferidos para as contas do próprio clube. Na prática, como bem resumiu a associação de torcedores à época, a torcida foi forçada “a pagar para que alguém peça dinheiro emprestado para ser dono do seu clube”. O resultado? Mais de £1 bilhão em juros, taxas e dividendos extraídos das veias da instituição. A diáspora, a queima de carnês, o estádio pintado de verde e dourado em protesto, e o mais doloroso dos atos: o nascimento do FC United of Manchester, um filho nascido da dor da perda. Eles não perderam apenas o superávit; perderam o sentimento de pertencimento. O clube que era deles passou a pertencer a uma dívida.

Contudo, o futebol, em sua infinita e por vezes contraditória sabedoria, sempre oferece um contraponto. Enquanto alguns se vendem, outros se unem. Olhemos para Hamburgo, para o porto onde atraca a nau pirata do FC St. Pauli. Lá, a lei é outra. A regra “50+1” da liga alemã é a espinha dorsal que garante que a associação de sócios – o povo, a gente – sempre tenha a maioria dos votos, não importa quanto capital externo seja injetado. Para eles, torcedores não são clientes, mas “participantes ativos no destino do clube”. A prova máxima dessa filosofia foi a venda de parte do seu próprio estádio, o Millerntor, não a um fundo de investimentos, mas aos próprios torcedores, através de um modelo cooperativo. Eles não venderam a alma para salvar o corpo; eles fortaleceram a alma para proteger o corpo

Uma lição de resistência em tempos de rendição. E assim, voltamos a nós, ao nosso dilema, ao nosso grito. Surgem os cantos de sereia, as propostas mirabolantes que prometem um paraíso SAF sem demônios. Falam em “SAFiel”, um nome que já soa a engodo, a um truque de ilusionista. Vendem a ilusão do controle popular, mas, ao se olhar as letras miúdas, o que se vê é a criação de uma nova casta de torcedores, onde o voto de alguns poucos, com maior poder aquisitivo, vale mais que o de milhares. Troca-se o poder dos cartolas pelo poder de quem tem mais dinheiro para comprar ações. Não é o povo no poder; é a Faria Lima no controle societário. 

É o “SAF-se quem puder” disfarçado de democracia, uma democracia de poucos, para poucos. O grito por SAF é, antes de tudo, um grito de dor. É compreensível, sim. Mas a cura para uma dor de cabeça não pode ser a guilhotina. 

O Corinthians nasceu de uma vaquinha de operários, um ato de teimosia coletiva, de fé inabalável no povo. Vender seu controle para pagar uma dívida, por maior que seja, não é uma solução moderna; é a rendição final. É trair o gesto inaugural dos cinco trabalhadores que, sob a luz bruxuleante de um lampião, decidiram que o povo, e apenas o povo, seria o seu próprio dono. E a alma, meus amigos, não tem preço. Nem dívida que a justifique. 

 


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