O piuí da Piauí
Caderneta no bolso, um olho no treino, outro no vestiário. Houve um tempo em que o jornalista esportivo buscava a notícia, investigava… calma aí, não é papo saudosista. Prometo que não vou invocar as tais lembrovitas.
Eram outros tempos, é verdade, mas ali tinha pergunta, não achismo; tinha investigação, não um corte de 30 segundos gritando para viralizar no TikTok. A busca era pela verdade, pelo bastidor, por CONTEXTO. O jornalista não queria ser protagonista — queria ser o fio que ligava o torcedor àquilo que ele não podia enxergar. Errar fazia parte, exagerar, idem — mas ainda era jornalismo. Jornalismo que buscava o fato, não o like.
Hoje, parece que o jogo virou — e tá pior que o 4x1 que tomamos da Argentina. O jornalista virou, muitas vezes, um influencer de arquibancada. Não pergunta, opina. Não investiga, faz react. É um descompromisso que aliena. O único compromisso que resta é com os dados de audiência do YouTube, com o engajamento no X — antigo Twitter (acho que tem alguma lei que obriga a dizer “antigo Twitter” toda vez que citamos o X).
Tudo virou um teatro de polêmicas vazias, onde o foco não é a notícia — é o grito.
Enquanto isso, o futebol brasileiro murcha. A CBF faz seus jogos sujos como se fosse um cartório hereditário. E ninguém parece disposto a cutucar o vespeiro. Medo? Conveniência? Conivência? Não sei. Talvez estejam ocupados demais debatendo o Memphis em cima da bola.
E enquanto tudo isso acontece — o ruído, os cortes, os reacts, os debates vazios — o futebol brasileiro segue sendo conduzido por mãos invisíveis, mas nem um pouco inofensivas. A sujeira continua ali. Só que agora, sem ninguém disposto a sujar as mãos para cavar a verdade.
Até que... veio ele.
Não um repórter esportivo.
Não uma estrela de podcast.
Não um perfil verificado no X.
Veio Allan de Abreu — e com ele, a reportagem da Piauí que caiu como um raio em céu de indiferença.
Fome por fato. Paciência para investigar. Coragem para não embarcar no barquinho fácil do espetáculo. Allan fez aquilo que muitos dos nossos cronistas de bancada deveriam ter feito: jornalismo. Com jota maiúsculo. Daquele que exige tempo, uma dose generosa de coragem, e um compromisso ético inegociável.
O caso Ednaldo Rodrigues — presidente da CBF — foi escancarado não por um especialista em bola, mas por alguém que entendeu o jogo muito melhor do que quem só assiste do camarote.
Um tapa. Não um tapa violento, mas de luva de pelica. Daqueles que não ferem — envergonham.
A ironia é amarga, né? Enquanto as estrelas do jornalismo esportivo debatem em podcasts, querendo provar que entendem muito de “jogo posicional”, um forasteiro foi lá e enxergou a maracutaia que eles não viram.
Eu sei bem como é. Em 2023, fui eu quem resgatou o “Caso Cuca” e expôs o que tinha rolado em julho de 1987. Por mais de 35 anos, ninguém teve a curiosidade de dar um Google.
Que preguiça boa, né?
E é aí que a saudade bate: não do passado, mas do papel que o jornalismo esportivo poderia estar cumprindo. Porque o futebol não precisa só de análise tática ou indignação performática. Precisa, sobretudo, de quem pergunte. De quem investigue. De quem incomode.
Enquanto isso não acontece, seguimos reféns do ruído.
E o silêncio sobre o que realmente importa — este sim — segue ensurdecedor.

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