A Liturgia do Incêndio
Não o chamem de leito. Aquilo que jaz entre quatro paredes é uma geografia de cinzas, um esquife de linho onde a noite derrama seu orvalho de ferro. Ela não dorme; ela se sepulta. Ali, o silêncio não é ausência de som, é uma faca vertical que corta o fio de sua garganta, despojando-a de seu nome, de sua luz, de sua substância de mulher. Mas escutem o rugido que vem debaixo das costelas. Sua epithymia não é um erro de cálculo, nem o capricho de uma uva amarga. É a raiz faminta que perfura a pedra buscando a água. É o grito de sua pele — essa planície que se nega a ser fóssil, que recusa o mofo das instituições e reivindica o seu direito ao incêndio. O corpo, meus senhores, não foi moldado para a poeira das bibliotecas, mas para o trigo e para a labareda. E sua boulesis? Não a chamem de cúmplice. Ela é a arquiteta das ruínas. Com a lucidez de quem conta os pregos de sua própria cruz, ela mediu o abismo desse "lar" e descobriu que a santidade ali pregada era um veneno de lenta d...